Designer gráfica e ilustradora.

Veja também as bolsas e
acessórios desenvolvidos
por mim, disponíveis
no Mercado Imaginário.

Junho 2008
 

 

Desde que criei o Mercado Imaginário, algumas questões sobre consumo, moda e responsabilidade social tem me acompanhado com freqüência.

Diariamente me pergunto se devo substituir o plástico que uso para proteger os produtos por outro material que cause menor impacto ambiental (e que cumpra esta função com a mesma eficiência), me questiono se as peças que eu produzo serão usadas durante toda a sua vida útil ou se serão descartadas precocemente, me pergunto até que ponto sou responsável pelas peças que produzo e distribuo pelo planeta em que vivo.

Penso se devo descartar as sobras de tecidos ou se elas devem ser de alguma forma reaproveitadas, evitando assim o desperdício e o lixo excessivo, me preocupo com a procedência e a composição do material que uso na confecção das bolsas, me questiono sobre o nível de comprometimento que devo ter com as pessoas que trabalham direta e indiretamente comigo e que contribuem essencialmente para a existência do Mercado Imaginário.

Me pergunto até mesmo se devo ou não considerar as tendências duvidosas sugeridas pela moda, pois o que a princípio pode parecer ser uma dúvida fútil, deixa de ser, se considerarmos que uma peça feita baseada em modismos, tem maiores chances de ser pouco usada. Enfim... diariamente me cubro de perguntas sem respostas precisas e imediatas e acabo sempre achando que estas questões ainda não foram digeridas e não estão organizadas na minha cabeça, o suficiente para serem postadas, compartilhadas e associadas ao Mercado Imaginário.

Todas essas dúvidas se misturam com dúvidas freqüentes do dia-a-dia, como o destino do nosso lixo (mesmo quando praticamos a coleta seletiva dentro de casa), no destino das nossas pilhas e baterias, nas garrafas plásticas que deixamos na lixeira diariamente, no sapato novo que nunca foi usado, na fruta que acaba estragando, na água que desperdiçamos no banho e parará pão duro (que também acaba indo para o lixo).

Mas quem pensa demais, acaba não fazendo e por isso, além de adotar pequenas atitudes no dia-a-dia, comecei a esboçar em palavras, as idéias que expressam a minha preocupação com o caminho que as coisas e as pessoas vêm tomando.

O texto que comecei a escrever, nada mais é que um manifesto resumindo as coisas que me fazem repensar diariamente na minha responsabilidade (e na responsabilidade do Mercado Imaginário) com o planeta, e principalmente com as pessoas que vivem nele.

O texto também menciona o poder que a moda e a mídia têm de fazer com que pessoas privilegiadas, saudáveis e criativas se sintam inadequadas ou imperfeitas quando se vêem diante de um padrão duro e inatingível para a imensa maioria das pessoas.

Paralelamente, tenho visto o crescente interesse por parte de pessoas e empresas em relação ao consumo consciente e isso me ajuda a acreditar que estou no caminho certo.

Mas resumindo essa história toda, minha maior preocupação era amarrar e conduzir a idéia de um jeito consciente e que não soasse chato e repetitivo.

Encurtando esse blá blá blá...

Eis que esta semana recebi um link com um vídeo que chama "The story of stuff" ou "a história das coisas".
De uma forma bem simples, o vídeo amarra 80% dessas questões que me cutucam há muito tempo.
Os 20% restantes que não são abordados nesse vídeo e que me fazem pensar, nada mais é do que um reflexo direto de tudo isso: pessoas mal-educadas, mal-humoradas, inseguras, egoístas e cegas para o mundo e para os outros, com as quais esbarramos diariamente. Não gosto de generalizar, e falando assim, parece que estou me colocando numa posição superior, mas a verdade é que esse reflexo certamente inclui nós mesmos, quando nos flagramos tendo essas mesmas atitudes. São reações rudes, instintivas ou preconceituosas com as quais nos acostumamos a conviver e ás vezes nem nos damos conta que elas estão acontecendo, ou mesmo não nos damos conta que as estamos praticando também.

O link para o vídeo é esse aqui:

E abaixo, o embrião do manifesto que estou desenvolvendo para o Mercado Imaginário:

O mi apóia a vontade própria, o gosto pessoal, o bom gosto relativo que deixa as pessoas livres para escolherem o que querem usar.
O mi não determina suas coleções por estação, porque sabe que coisas bonitas, alegres e úteis são feitas para serem usadas durante o ano inteiro, por uma vida toda, se assim você quiser.
O mi acredita Na gentileza;
O mi acredita que a moda existe como forma de expressão e que devemos usar e abusar dela, e nunca permitir o contrário;
O mi acredita que ninguém deve ditar a cor que você vai usar durante as estações e que a sua cor preferida pode ser todas ao mesmo tempo, ou uma por dia e ninguém tem nada a ver com isso.
O mi acredita que devemos cuidar do planeta, sem esquecer de cuidar dos humanos que vivem nele;
O mi não acredita no "certo e errado" da moda porque "o certo" é apenas usar o que te faz se sentir bem.
O mi apóia a reciclagem, o reutilização e o consumo consciente
O mi incentiva o uso da bicicleta e dos pezinhos, sempre que possível
O mi torce pelo desuso das palavras "compre" "use" "seja"
O mi torce pelo desuso dos termos "must have" e "sonho de consumo" (Aliás, existe coisa mais fora da realidade que "sonho de consumo"?)

Consumo consciente

Há alguns meses, também me propus a consumir menos. Comecei cortando roupas, sapatos, salão de beleza e outros caprichos. O curioso é que de lá pra cá só me dei ao luxo de comprar 2 blusinhas novas, em períodos bem espaçados e me surpreendo ao perceber que não consumir também me deixa feliz e por isso vou adiando minha próxima aquisição enquanto puder...

* Os "must have" de cada estação sempre me soaram como uma piada, e cada vez mais, tenho certeza que o são.

Aos poucos vou tentando expandir a experiência e passo a me questionar se preciso mesmo pintar a parede com uma nova cor a cada 6 meses e ao primeiro impulso de consumo eu já me pergunto:

1 - Eu realmente preciso disso...ou eu apenas desejo isso?

2 - Minha vida, daqui há 6 meses ainda terá os benefícios dessa
aquisição ou essa "necessidade" logo será substituida por outra?

3 - Estou adquirindo algo, porque isso irá de fato melhorar a minha vida,
ou para, de alguma forma mostrar a sociedade a que grupo eu pertenço?

Essas, entre outras perguntinhas, geralmente acabam me fazendo enxergar o que realmente é essencial, ou não, na minha vida. E começo a me certificar que 99% das coisas que desejamos não são essenciais na nossa vida!

Não quero simplesmente defender o não-consumo, pois confesso que adoro poder comprar um mp3 player, um móvel, ou uma roupa nova, mas acredito que podemos tornar o consumo verdadeiramente consciente e dessa forma resgatar atos igualmente prazerosos e esquecidos.

Eu sei, misturei lé com cré, mas essa sementinha precisava germinar, e se você concordou comigo (ou discordou) já valeu a pena! =)